top of page

Achei que a culpa era minha

Foto do escritor: Tais Tozatti
Tais Tozatti
3 de out.
3 min de leitura
Mulher parda de cabelos cacheados castanho-claros, com blusa azul-clara, sentada junto à janela com um caderno aberto no colo e uma caneta na mão.

Na primeira sessão, Marina contou algo que nunca havia dito a ninguém. Tinha cinco anos quando começou a frequentar a casa de um vizinho de vinte e poucos anos. Ele a tocava sexualmente. Ela voltava. Durante décadas, usou essa lembrança para se condenar: “Sempre fui safada, desde criança.”

Aos 35 anos, Marina era uma arquiteta bem-sucedida. Gostava de sair, dançar e conhecer homens. Os encontros casuais a faziam sentir viva. Nunca havia desejado ficar com uma pessoa só; para ela, isso parecia um tédio.

Chegou a se casar com Rafael. Ficaram juntos por quatro anos, mas ela o considerava bonzinho e certinho demais. O relacionamento terminou, e Marina seguiu sua vida.

Até que, aos 34 anos, sofreu um segundo infarto. Precisou passar por um procedimento cirúrgico invasivo, que deixou sequelas no corpo. “Por que outro infarto?”, perguntava-se. Com as restrições relacionadas aos medicamentos, já não podia beber e perdeu a vontade de sair para dançar. Começou a se sentir sozinha.

Rafael havia se casado com uma grande amiga dela. Ao observar a vida tranquila dos dois, Marina se perguntava por que não conseguira permanecer naquele relacionamento. Junto dessas perguntas, vinha a culpa pelos encontros que tivera, inclusive com homens casados.

Foi nesse momento que procurou terapia online. Queria compreender o que estava sentindo. Na primeira conversa, acabou contando sobre o vizinho e sobre a menina que, em sua memória, parecia responsável pelo que havia acontecido.

Para sua surpresa, a terapeuta não a condenou. Explicou que uma criança de cinco anos precisa de proteção e que a responsabilidade por aquele comportamento era do adulto.

Quando perguntou onde estavam os pais enquanto ela ia à casa do vizinho, Marina percebeu que nunca havia olhado para essa parte da história. Sentiu vontade de chorar, ainda sem compreender o que aquele choro carregava.

Nas sessões seguintes, começou a reconhecer que havia sofrido abuso sexual. Voltar à casa daquele homem não tornava a menina culpada. Uma criança pode buscar atenção e vínculo sem compreender que está sendo abusada. E as respostas involuntárias do corpo não significam consentimento.

Marina havia interpretado a sensação de ter “gostado” como uma traição do próprio corpo. Agora, começava a compreender que aquela sensação não tornava aceitável o que o adulto fizera, nem transferia a responsabilidade para ela.

Aos poucos, encontrou espaço para lamentar os abusos e a falta de proteção que vivera. Também começou a explorar o significado dos relacionamentos em sua vida adulta.

Na sua experiência, os encontros casuais traziam uma sensação de controle, enquanto a intimidade despertava vulnerabilidade e medo. Ao lembrar do casamento, reconhecia como se sentira fraca e dominada. Começou a investigar se manter distância emocional havia sido uma forma de tentar se proteger.

O número de parceiros, por si só, não explicava sua história. O que Marina queria compreender era como se sentia nos encontros, o que desejava e quanto suas escolhas eram atravessadas pelo medo.

Pouco a pouco, foi aprendendo a se conhecer e a cuidar de si. Não sabia quanto tempo levaria para reconstruir a vida, sentir-se merecedora de amor e construir relações em que pudesse estar próxima sem se perder.

Mas já sentia alívio por ter começado. A história que antes contava para se condenar podia ser olhada com mais compreensão. Marina estava aprendendo a reconhecer que aquela menina precisava de proteção e que, hoje, ela também merecia cuidado.

bottom of page