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Era para eu estar feliz…

Foto do escritor: Tais Tozatti
Tais Tozatti
3 de out.
3 min de leitura
Jovem de aparência leste-asiática, com camisa azul-clara, monta um quebra-cabeça sobre uma mesa de madeira em um ambiente iluminado por luz natural.

Dionísio estava numa casa de praia com os amigos quando começou a chorar. Não se lembrava do assunto da conversa nem sabia explicar o que sentia. A tristeza parecia ter chegado do nada. Um amigo, estudante de psicologia, o acolheu e sugeriu que levasse aquilo para a terapia. Depois, o choro passou e eles começaram a beber. Para Dionísio, a bebida trazia uma sensação de relaxamento e alegria.

Aos 22 anos, ele tinha uma boa relação com o pai e a madrasta. Nos últimos dois anos, porém, algumas coisas haviam mudado. Chegava cada vez mais alterado pelo álcool, dormia mais e se irritava com situações que antes não o incomodavam, principalmente quando estava com o pai.

A madrasta percebia essas mudanças. Por trabalhar com comportamento humano e conhecer a história da infância dele, estava preocupada. Conversava com o marido sobre o que observava, respeitando a relação entre pai e filho. Mas foi uma pergunta de Dionísio que abriu espaço para procurar ajuda.

Certo dia, ele lhe contou um sonho. Sabendo que ela estudava o cérebro e o comportamento, quis saber o que aquilo significava. Ela reconheceu que não poderia ajudá-lo com aquela análise, mas conhecia um terapeuta que trabalhava com sonhos. Ofereceu uma consulta, e Dionísio aceitou na hora.

Ele preferia um encontro presencial e começou a sessão online um pouco desconfortável. A surpresa foi perceber como se sentiu à vontade com o profissional. A conversa sobre o sonho trouxe questões sobre sua vida que ele não esperava encontrar ali. As perguntas do terapeuta lhe davam a impressão de estar diante de alguém que já o conhecia havia muito tempo.

Quando a sessão terminou, ele queria continuar. Contou a experiência à madrasta, entusiasmado. Ela ofereceu pagar pelo acompanhamento, e ele aceitou. A partir daí, os encontros passaram a acontecer uma vez por semana.

Às vezes, conversavam sobre sonhos; em outras, sobre o que ele estava vivendo. Nem sempre Dionísio sabia o que dizer. O terapeuta o deixava à vontade e explicava que ele não precisava chegar sabendo como conduzir a conversa. Foi nesse espaço que contou sobre a tristeza e o desânimo que surgiam em momentos inesperados, como naquele fim de semana na praia.

Ao falar de sua infância, descreveu uma confusão. A mãe tinha problemas com álcool e usava outras drogas. Nas suas lembranças, ela aparecia alterada, entre brigas com o pai e momentos de choro, quando pedia desculpas. Ele olhava para aquilo e pensava: “Quando esse inferno vai acabar?”

Também sentia muita raiva do pai. Entre uma separação e outra, ele voltava quando a mãe prometia que não beberia mais. Dionísio tinha 15 anos quando os pais se separaram e o pai conseguiu sua guarda.

Agora, nas sessões, ele começava a olhar para essa história e a explorar possíveis relações com o que sentia no presente. A irritação com o pai, a tristeza inesperada e o lugar da bebida em sua vida podiam ser conversados, sem precisar encontrar uma explicação pronta para tudo.

Inteligente e curioso, Dionísio queria saber o que descobriria sobre si em cada encontro. Era reconfortante ter um espaço para investigar aquilo que tantas vezes lhe parecera esquisito, sem lógica. Aos poucos, a terapia se parecia com a montagem de um quebra-cabeça: ele encontrava peças da própria história e começava a compreender como elas se relacionavam. Ele não precisava descobrir tudo em uma só sessão.

E você, já sentiu uma tristeza que não sabia explicar? Talvez o primeiro passo seja poder falar sobre ela, mesmo sem ter todas as palavras.

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