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O caminho de volta para mim.

Foto do escritor: Tais Tozatti
Tais Tozatti
3 de out. de 2025
2 min de leitura

Atualizado: 3 de out.

Mãos adultas seguram uma fotografia de uma menina, ao lado de uma carta manuscrita e um envelope azul-claro sobre uma mesa clara.

Em 2014, me pediram para escrever uma carta para uma criança. A criança era eu. O exercício fazia parte de um congresso online sobre práticas integrativas que eu havia comprado: olhar para uma foto da minha infância e escrever para minha criança interior. Achei aquilo esquisito, sem sentido. Mesmo assim, fiz. Olhava para a fotografia, escrevia, mas não sentia nada.

Eu não compreendia aquela distância. Naquele congresso, conheceria a profissional com quem mais tarde faria minha formação como terapeuta. Aquela estranheza foi o começo de um caminho.

Em agosto de 2016, uma terapeuta me indicou o livro Volta ao Lar, de John Bradshaw, para me ajudar a entrar em contato com minha criança interior. O autor havia falecido em maio daquele ano. Eu já começava a compreender o que aquela expressão significava.

Aos poucos, também entendi o desconforto da primeira carta. Eu estava distante da menina da fotografia e dos meus próprios sentimentos. Era como se uma parte de mim tivesse ficado congelada. A expressão “congelamento emocional” me ajudou a dar nome àquela desconexão.

Na época, eu não conhecia um profissional que conduzisse aquele trabalho. Decidi ler o livro e fazer as atividades por conta própria. Queria encontrar a criança ferida que eu havia sido e me aproximar de mim. Levei aproximadamente cinco meses.

Durante esse caminho, um universo se abriu. Havia descobertas fascinantes e outras que me assustavam. Aos poucos, percebi algo se descongelando em mim. As emoções chegavam discretamente, como pequenas gotas de água na superfície de um icebergue quando a temperatura começa a subir. Fui percebendo cada gota.

Em 2016, também trabalhei as atividades do livro com meus primeiros clientes. Acompanhava suas descobertas enquanto vivia as minhas. Aquelas mudanças me mostraram a força do livro. Volta ao Lar passou a fazer parte do meu trabalho e me acompanha até hoje.

Eu poderia terminar a história aqui. Mas em 2020, durante a pandemia, voltei aos exercícios ligados à adolescência. Nessa volta, compreendi a palavra “processo”. Entrei em contato com sentimentos que ainda eram novos para mim. Entre eles, a raiva.

Imagine: seis anos depois daquele primeiro exercício, eu conseguia sentir raiva. Ainda havia partes de mim a conhecer. Fazer as atividades uma vez não encerrava as descobertas. Meu processo continuava.

Conto essa história porque sei como pode ser difícil começar a cuidar de si e sentir que nada está acontecendo. Às vezes, só aparece o desconforto. Na minha experiência, compreender o que eu sentia e me aproximar de mim levou tempo.

Vivemos cercados de convites para aliviar tudo depressa. “Tá com dor de cabeça? Tome esse remedinho aqui!” O alívio tem seu lugar, mas nem todo cuidado cabe nessa urgência. Quantas vezes por dia buscamos uma resposta imediata? E quantas vezes nos permitimos cuidar de nós sem saber exatamente quanto tempo uma mudança vai levar?

Hoje, entendo que autoconhecimento é um processo individual, com ritmo próprio. Meu caminho começou com uma carta que parecia não fazer sentido. Mesmo sem sentir nada, eu havia começado.

E você, qual cuidado consigo pode começar hoje? Se não agora, quando?

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